Amor e sexo. E todos os seus derivados.
São Paulo - Começou ontem com sessão de cinema e festa para convidados o Mix Brasil – o festival de cinema e vídeo da diversidade sexual. Sob o tema: “O que é estranho para você?", a mostra propõe filmes de todos os gêneros - (drama, terror, pornô, comédia, etc) e formatos (animação, curtas e longas) que apresentem imagens transgressoras, narrativas inventivas, estéticas ousadas, como uma alternativa à "institucionalização" da cultura gay. O Repique tratou de conversar com uma das organizadoras e curadora do Mix Brasil, Suzy Capó. Vamos a ela:
Suzy, por que o tema do Festival esse ano é “O que é estranho para você?”
Foi um tema desenvolvido pela agência de publicidade a partir de um briefing em que minha preocupação era mostrar imagens alternativas às imagens certinhas e caretas da cultura gay, que está cada vez mais absorvida pelo mainstream. Na curadoria, eu estava atrás de filmes que fossem transgressores, que fossem alternativos a essa concepção porque existe uma beleza na diferença e ela se perde se você mostra imagens homogêneas ou pasteurizadas de um segmento social cada vez mais bem aceito. O segmento GLTB - ou GLS, como você preferir - é tão diverso quanto o segmento heterossexual.
Sim, procurar mais do mesmo seria justamente repetir esse padrão ‘caretinha’ que você comentou...
Fui atrás do que há de novo com temática de diversidade sexual. Porque uma parte dessa cultura está sendo absorvida e apropriada e não corresponde à diversidade. O cinema voltado para o mercado tem preocupações financeiras que não permitem um vôo criativo. Na televisão nem se fala, por mais absorvida que esteja sendo, você não vê beijo gay na novela ou na TV brasileira. Acho até que essa é umas das funções do festival, formação de olhar do público.
E o que você encontrou?
Esse ano encontrei muito filmes transgressivos, sem vergonhas, criados e exibidos no contexto das artes plásticas, em galerias, ultrapassando a tela de cinema, que buscam novas fronteiras. Teve um recorde de filmes brasileiros inscritos, em função da profissionalização do cinema e do mercado depois da Retomada.
Quando a gente começou (início dos anos 90), foi muito difícil montar um programa na mostra de filmes Panorama Brasil. Os filmes não eram profissionais. Agora fomentou a produção, os cineastas sabem que têm uma chance de expressar sua opinião no cinema, sabem que existe um lugar para mostrar. É diferente produzir e saber que tem um lugar certo no cinema. Antes você não tinha chance. A mostra está bem forte, mais do que eu imaginava que seria.
Você não acha que a estética gay é muito narcisista?
Gay se olhando no cinema não tem nada haver com narcisismo. Acho que fazer um festival de diversidade sexual é uma ponte de identificação, de formação de olhar, em que você vai assistir imagens daquilo que é você.
Existe uma coisa bacana da cultura gay que é uma crítica em forma sátira. O filme “Mais um filme gay 2” trata disso - é uma bobagem, um monte de bicha sarada na praia não sei de onde - que faz uma crítica se utilizando dessa estética. Outro filme é “Otto: ou Viva a Gente Morta”, do (diretor canadense) Bruce LaBruce que é completamente transgressor, que faz uma crítica de forma completamente diferente.
E sobre o filme que passou na abertura, o “Antártica”, de Yair Hochner?
É um filme diferente que traz um frescor que acho que está faltando no cinema de forma geral. Tem os elementos que eu estava buscando - é sexy, sem vergonha, político de certa forma, fala de gays e de lésbicas. Achei adequado. Ainda por cima é de Israel, que é o país foco do festival esse ano.
Por quê?
Exatamente porque encontrei lá o que estava buscando. O Festival tem a programação Mundo Mix que foca às vezes em uma cidade, uma região inteira ou país. Já foi Berlim, Vancouver, Ásia. Esse ano aconteceu de virem vários filmes israelenses por meio desse diretor, Yair Hochner.
E por que tem edição do Festival também em Belo Horizonte? Isso é uma novidade não?
Sempre tem Rio e Brasília, que a gente faz desde 2002. Desde o ano passado, Belo Horizonte também estava querendo entrar, rolou a oportunidade e o patrocínio. A bem da verdade é uma praça bem forte.
E quais são suas apostas no Festival esse ano?
Aposto na noite das meninas. Continuo apostando. Faz tempo que tento fazer com que o público feminino também participe do festival. Concentrei a programação de filmes sobre mulheres e para mulheres no Espaço Unibanco, criei uma noite toda dedicada a elas, no dia 19, com DJs mulheres tocando no lounge do Espaço.
E tem mais uma coisa, a gente vai pela primeira vez exibir uma animação de curta-metragem para o público infantil. É uma coisa que estou a fim de fazer há tempos. Uma animação de seis minutos, um filme de acervo que já foi exibido no Festival em 2003 ou 2004. A idéia, no mundo dos sonhos, é que pais gays levem seus filhos.
E que filme é esse?
Chama ‘Relacionamentos’, um monte de figuras geométricas que tentam se entender.

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