segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O SUCESSO DE "BETTY, A FEIA", DE TOP MODELS EXÓTICOS E DE LIVROS QUE VIRARAM BEST-SELLERS FAZ DA RENEGADA FEIÚRA UM BOM NEGÓCIO

Depois dos Beatles, de Michael Jackson e de Madonna, pop mesmo é uma menina desengonçada, que usa aparelho nos dentes e óculos fundo de garrafa. O nome dela é Betty. E o sobrenome: Feia. Sua popularidade hoje é medida em 76 países.

A novela colombiana "Betty, a Feia" -a segunda temporada da versão americana em forma de seriado estreou na semana passada na Sony- é um fenômeno que se espalha para além da TV.

Contaminou de vez a indústria do entretenimento e da moda, assim como a literatura e as artes. Em São Paulo, os sinais de que os feios foram coroados reis do pop está na multiplicação do visual nerd de Betty pelas baladas e desfiles de moda.

Da lista de best-sellers também vem outro sinal: o sucesso de livros como "A Vida Sexual da Mulher Feia" (editora Agir, 136 págs.), ficção de Cláudia Tajes que será levada ao palco em São Paulo e à TV pela produtora Conspiração Filmes.

Um empurrão erudito foi dado pelo italiano Umberto Eco, que lançou "História da Feiúra" (editora Record, R$ 160), em 2007. Em um ano, foram vendidas 10 mil cópias no Brasil. É o dobro do que vendeu no primeiro ano "História da Beleza", do mesmo autor.

Ir na contracorrente do eterno culto à beleza é uma onda internacional. Para Marc French, diretor da agência inglesa Ugly Models -que, como diz o nome, aposta no nicho dos que "fogem do padrão"-, a inclusão de pessoas feias na indústria do entretenimento, da moda e da publicidade é "tendência mundial".

Um bom exemplo é a escolha do inglês Del, 30, para protagonizar anúncios da Calvin Klein. Em vez dos modelos de corpos e rostos perfeitos que sempre enfeitaram as campanhas da grife americana de jeans e underwear, brilha uma estrela da Ugly Models. Del é magro, tem dentes tortos e expressão caipira.

"Usar os feios é algo fora do comum, o que pode tornar uma campanha bem mais excitante", explica Marc, que, depois de abrir, em 2007, filial em Nova York, anuncia para o ano que vem a sua vinda a São Paulo em busca de "novos talentos". "É uma cidade que tem uma diversidade étnica fantástica", diz o empresário. "Vou encontrar gente interessante por aí."

As agências tradicionais também se aventuram no novo nicho. Fizeram descobertas como a gaúcha Daiane Conterato, 17, dona de uma carreira sólida no exterior por sua beleza não-convencional. Sua agência no Brasil, a Ford Models, não permitiu que a contratada participasse da reportagem. "Ela pode perder trabalhos no Brasil", disse o seu agente, ao dispensar a proposta de capa desta edição.

Com o rosto no estilo das atrizes preferidas do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, Daiane caiu nas graças da papisa da moda Miuccia Prada. Hoje, vive em Nova York e está entre as 35 modelos mais bem-sucedidas da atualidade.

Quem também estendeu o tapete vermelho para "tipos exóticos" é o cinema americano. Na semana passada, Sylvester Stallone anunciou que, para produzir seu próximo filme, "The Expendables" (os dispensáveis, em tradução literal), vai recrutar somente "homens feios". É, segundo o ator, uma contraposição a "Onze Homens e um Segredo", que aposta em um elenco de primeira linhagem visual, capitaneado por Brad Pitt e George Clooney.

Todos esses exemplos são brechas numa cultura que exagerou na devoção à beleza. "Não é coincidência que isso tudo esteja acontecendo agora", diz a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, autora do livro "O Intolerável Peso da Feiúra". "É como se dissessem: 'Do que é que temos tanto medo? Que horror é esse em relação aos feios?'"

Tal ojeriza é um problema particularmente contemporâneo. "Antes de o cinema e as revistas femininas apontarem padrões de beleza, a feiúra do corpo não era uma preocupação", diz a historiadora Mary Del Priore, que confirma sua tese citando as nobres retratadas antes do século 20: entre elas, mulheres com verrugas, gorduras e bigodes que não eram disfarçados pelos pintores. "O que valorizava a mulher era seu comportamento, sua graça, sua elegância", compara Mary.

Feiúra na telinha
As novas mídias, que passaram décadas para estabelecer a magreza, os corpos definidos e o perfil Barbie como padrão de "sucesso", agora percebem que fugir dessa ditadura rende ibope. "A Betty reinstaura a possibilidade de admirar uma feia na TV, num tempo em que os feios não têm direito de aparecer na telinha", afirma Joana.

O cantor e poeta Felipe Flip, 28, diz que já enxergou "tal brecha". "Fico feliz de ver que há mais gente feia aparecendo na mídia. Os feios, como eu, gostam disso, se identificam e se sentem menos excluídos", reflete. Depois provoca: "Nós feios vamos dominar o mundo, assim como as mulheres e os chineses".

De olho nesse mercado, o escritor argentino Gonzalo Otalora, que defende a criação de impostos para os belos, vai lançar livro em Sampa no ano que vem. Trata do assunto com uma veia ao mesmo tempo cômica e amarga, assim como "A Vida Sexual da Mulher Feia", o mais vendido dos três livros de Cláudia Tajes.

A autora define como "única" a experiência de ter publicado um livro com histórias íntimas de uma mulher feia. Foi convidada para discussões e palestras. "Era estranho", diz Cláudia. "Escrevi uma ficção, e me chamavam para discutir o assunto de maneira séria e psicanalítica."

Sem embasamento científico, ela passou por saias-justas. "Muita gente fazia perguntas sobre a feiúra, e eu não tinha idéia de como responder."

Cláudia, que se considera "normal, mas com dias horríveis", diz ter recebido reclamações de duas associações de mulheres assumidamente feias por conta do livro, uma de Portugal e outra do Ceará.

No Orkut, a feiúra também conquista popularidade. Dona da comunidade "Eu Sou Feia * Feio e Sei Disso", do site de relacionamento, a gerente comercial Sandra Ribeiro, 48, conseguiu reunir um rebanho. Defende a idéia de que assumir a feiúra pode ser o primeiro passo para a aceitação -dos outros e de si próprio.

Um texto de abertura da página criada por ela tem cara de manifesto: "Somos FEIOS! Temos consciência disso, o espelho não nos engana. Temos que nos conformar". Em seguida, vem o fecho da campanha: "Feios? Feias? Juntem-se a nós!!!".

Fora depois da foto
Sandra conta que resolveu criar a comunidade ao ter sido rejeitada por um parceiro virtual. Eles se corresponderam durante um tempo, até o dia em que ela lhe enviou uma foto. Ele foi franco, disse que ela era feia e tomou chá de sumiço: "Aquilo me magoou. Eu me olhava no espelho e pensava: 'Realmente, sou feia'. Resolvi escancarar e assumir na internet, para que ninguém precisasse me dizer de novo".

Em três anos, o grupo "Eu Sou Feia * Feio e Sei Disso" reuniu 3.600 participantes, integrando-se a uma lista infindável de comunidades similares: "Sou Feio, mas Sou Legal" (47.177), "Eu Sou Feia, e Daí" (4.292), "Eu Sou Feio(a), mas Existem Piores" (28.667).

Apesar de os números serem expressivos, nem todos os que se juntam à turma dos renegados levam o termo a sério. "Existem poucas pessoas que você olha e pensa, 'Nossa, essa aí nunca vai achar namorado'. Quem entra na comunidade quer um outro tipo de aprovação", diz Sandra.

Na televisão e no teatro, o comum é esse drama funcionar como recurso cômico. As apresentações do "Terça Insana", sucesso há anos nos palcos da cidade, mostra como é recorrente o escárnio recair sobre os feios.

Várias personagens interpretadas no projeto, alguns deles na pele da atriz Grace Gianoukas, abordam a questão. Como Xaron, retirante mal-ajambrada que sobe ao palco ao som de canção da dupla de repentistas Castanha e Caju. Trecho da letra diz: "Dizem que mulhé bunita é quem anima uma festa/ Mulhé bunita ondi passa é lipo, rasto e arresta/ Mas se tivé mulhé feia é sinal que a festa não presta". A platéia cai na gargalhada.

"Não vejo isso como algo negativo", reflete a psicóloga Joana. "Faz parte da natureza humana fazer troça da desgraça alheia." Traduz aquela sensação: que bom que não sou eu. "É um riso que representa um certo alívio, portanto."

Narigão assumido
No texto de outra personagem, Grace faz referência à sua própria história. A atriz conta que, por muito tempo, teve de enfrentar seu narigão como um incômodo diante do espelho. Até o dia em que resolveu assumi-lo. "Optei por não fazer plástica. Não queria perder os traços dos meus antepassados italianos e gregos", afirma à Revista.

Mas, fora do palco, o preconceito contra a feiúra perde toda a graça. A beleza hoje é associada ao sucesso, no ambiente de trabalho inclusive. "É como se o sujeito feio tivesse responsabilidade por ser feio", analisa Joana.

Homens desprovidos de beleza têm mais chances de serem aceitos. "O impacto da feiúra sobre a imagem da mulher é justificado pelo discurso de que a feia é menos feminina. Se um homem é feio, ele não é menos homem", reflete a psicóloga.

De fato, homens procurados pela reportagem se assumiram com mais facilidade. "Eu me acho feio", diz o consultor Eduardo Sampaio, 41. "De vez em quando, é até bom. A vantagem é que temos o 'não' como padrão. Um 'talvez' ja é prata olímpica."

O músico Felipe Flip chega a defender a própria feiúra como arma de sedução, a exemplo do jornalista e escritor Xico Sá. "Por algum motivo que desconheço, as mulheres gostam dos feios", diz Felipe. "Eu só pego menina bonita." Quando questionado sobre se já ficou com alguma "Betty", ele se defende. "Eu já sou feio demais. Isso ficaria esteticamente esquisito, poeticamente ruim", justifica-se.

Um dia, no entanto, a estampa pesou contra. Felipe conta que namorava a garota mais bonita da faculdade, o que provocou desdém. "As pessoas torciam contra", diz. Até que a própria se deixou convencer, e o relacionamento foi por água abaixo.

Ainda que Umberto Eco tenha defendido a idéia de que "a feiúra é mais interessante do que a beleza", a qualificação acaba soando como uma espécie de perdão. Para não dizer castigo. Só quem já foi chamado de filhote de cruz-credo, cão chupando manga, dragão, tribufu, mal diagramado ou, simplesmente, feio, é que pode avaliar o peso.

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